Crítica à Peça “Nosso Irmão”

A peça está em cartaz no Tucarena, um teatro em forma de, como diz seu nome, arena. 360 graus. Chegando, o centro da arena estava montado. Música clássica ao fundo dando o tom do roteiro e holofotes suaves criando o clima acolhedor necessário para que a plateia, que ia chegando pouco a pouco, começasse a se transportar para o cenário da peça.

O cenário tentava reproduzir uma casa antiga, num vilarejo, insinuando os cômodos de uma casa, sem, todavia, completá-los. Aliás, está aí uma primeira diferença que ficou clara entre a linguagem cinematográfica e a linguagem cênica pra mim: as lacunas de cenário. Nos filmes, os efeitos visuais e a riqueza de detalhes das grandes produções nos contam tudo. Cada detalhe importa e os objetos costumam ser literais. No teatro não, a linguagem teatral aproxima-se mais da linguagem literária, em que a imaginação do leitor/plateia deve completar as lacunas do cenário e da história. É um outro exercício mental para quem assiste. Outra forma de se contar e de ouvir uma prosa.

Sobre o enredo, a sinopse prometia entregar a história de 3 irmãos: 2 mulheres e 1 homem mais novo, autista, que se reencontravam num vilarejo onde ficava a casa da mãe, recém falecida, para discutir o destino dos bens deixados e o, que passa ser surpreendente, os destinos dos próprios personagens: Tereza, Maria e Jacinto.

Nesse ponto, vale pontuar minha segunda percepção a respeito da diferença entre a linguagem teatral e as demais. A tal da ação. Todo professor de teatro diz que precisamos propor cenas com ação. Isso ficou claro nessa peça. Conversava-se enquanto se fazia mil outras coisas; pensava-se enquanto a atitude já ía sendo tomada; arrumava-se objetos da casa enquanto esses mesmos objetos faziam um dos personagens lembrar de algo que dava início a um novo tópico; fazia-se um bolo, enquanto se lembravam e passavam a falar da mãe, que sempre fazia os melhores bolos. Isso ficou claro. O teatro, pela própria geografia, que pressupõe um distanciamento cênico entre palco e plateia, e a falta de closes em câmera, requer ações corporais espaçosas que ajudem a contar a história, a qual precisa ser vista e compreendida de longe. Ações essas que também criem o dinamismo necessário para prender a atenção do público.

O teatro é a linguagem do cotidiano, da rotina, de quem não tem tanto tempo para parar e refletir na vida (a menos que seja um monólogo), é é no meio da vida acontecendo que as os sentimentos se desenrolam. A emoção vem dos movimentos. Ninguém para. É a vida andando pra frente e os sentimentos vindo atrás, nem sempre dá tempo de senti-los. O teatro parece ser terreno fértil para tramas maduras, cujas boas histórias costumam ser as que contam a vida de quem não fugiu das responsabilidades cotidianas. A vida de quem teve coragem para agir, ainda que a ação, muitas vezes – coisas da vida real – possa carecer de sucesso. Lidar com os fracassos faz parte, mas a vida não para. Essa é a lição de quem tem a coragem de entrar em cena. A peça transcorre nesse clima.

Jacinto tem autismo, e, em sua brilhante atuação, é responsável pela maior parte das cenas que arrancam risadas do público. Sua inocência o faz extremamente verdadeiro. E sua honestidade garante a catarse e os risos de quem se identifica com suas verdades ousadas. O personagem também se revela extremamente inteligente e – o julguei eu – o verdadeiro protagonista da trama, em torno de quem giram as maiores lições, inclusive afetivas. Ele fora o irmão mais próximo da mãe nos últimos anos por conta de sua condição especial e permaneceu morando com ela até o fim de sua vida.

As 2 irmãs mais velhas saem de casa para fazer suas vidas. Elas expressam algum ressentimento com a ausência de cuidado da mãe, que se dedicou com mais afinco ao irmão especial, ao passo que este deixa claro o ressentimento com a ausência das irmãs e desunião da família. Fica claro o amor existente nos vínculos de sangue, embora eles briguem, batam-se, compitam, invejem e impliquem um com o outro em vários momentos da peça. O amor fica evidente nas sutilezas, em meio a uma série de ações contraditórias. Quem tem irmãos certamente se identificou. A peça se desenrola de tal modo que as frustrações da história de cada um, as coincidências e incoerências se entrelaçam.

Maria, a irmã do meio, era a mais bonita do Vilarejo, mas nunca conseguiu firmar um namoro, todos os seus homens a abandonaram. Ela se muda para Madri para trabalhar num programa de televisão que resolve casos de família. Em dado momento, ela revela que não pode ter filhos. Diz que seus genes são ruins e se ela tivesse filhos todos nasceriam com problema. Subentende-se que ela já fez um aborto. Não fica claro se o problema genético a que ela se referia era o próprio autismo. E, curiosamente, em dado momento, ela expressa lamento e admiração por sua mãe ter conquistado algo que todos querem: jamais ficar sozinha. Sim, por conta da condição do filho Jacinto. A plateia permanece se questionando se ela não se arrepende de ter abortado. Mas isso não é revelado, nem fica claro. Agora, nos entremeios do velório, parece haver um engenheiro, seu namoradinho de infância, interessado nela. Jacinto torce para que dê certo.

Tereza teve 5 filhos, todos saudáveis, gêmeos entre eles. Seu casamento de 25 anos parece estar super desgastado. O marido telefona em várias cenas, bastante dependente dela. O curioso é que ela cogita colocar Jacinto num asilo, mas as conversas dela com o marido deixam claro que não havia tanta diferença de dependência entre seu marido e o irmão. Ambos eram igualmente capazes. E incapazes. Parece haver um outro homem no Vilarejo que mexe com ela também. Uma chance de Tereza mudar de vida, cuidar um pouco de si, já que passou os últimos 25 anos cuidando de todos, e ficou fixada nesse papel, uma máscara cansativa, que dava a ela apenas uma aparência de sucesso.

O conflito instaurado é impulsionado por um testamento particular da mãe, deixando uma generosa quantia em Euro para Jacinto com o encargo de decidir a qual das irmãs dar a outra parte. Depois de aventarem algumas opções do que fazerem da vida dos 3 e com o dinheiro, Jacinto expressa inocentemente – emocionando a plateia – que seu desejo é que os 3 permaneçam juntos, unidos, no Vilarejo. E o que aparentemente parecia um absurdo para as 2 irmãs, começa a se desenrolar na melhor e mais feliz opção para todos.

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