Demorei, mas cheguei. Finalmente a minha visão sobre a série adolescência, da Netflix.
Com cada capítulo em plano sequência – sem cortes – a série foi um dos maiores fenômenos do Streaming, tornando-se a série minissérie mais assistida de toda a história da plataforma, com 142,2 milhões de visualizações completas em 1 mês. A estreia foi no dia 13 de março de 2025. Impressionante.
A internet foi palco de elogio para as atuações brilhantes, com destaque para Owen Cooper, o adolescente, protagonista, em estreia no audiovisual. Stephen Graham, que faz o papel do pai, além de ator, é roteirista e produtor executivo da série, aparecendo nos créditos ao lado de Brad Pitt, dono da produtora.
A sinopse da série é a história de um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega da escola. O mistério e os porquês ficam para cada um dos 4 longos capítulos.
O assunto me fez lembrar meu primeiro dia de uma aula de Direito Penal na PUC do Rio de Janeiro, na Gávea. Eu devia ter uns 18 anos. Um professor de cabelos brancos, magistrado, catedrático, fez a seguinte enquete com os alunos: “Quem aqui nessa turma acha que nunca cometeria um crime?”. Quase todo mundo levantou a mão. Ele mandou imediatamente que elas fossem abaixadas e encerrou: “vocês já sentiram raiva de alguém? Todo mundo aqui cometeria um crime.”
Embora a polêmica e a discussão sejam os objetivos da série, vamos já partir do pressuposto de que nem todo mundo que comete crime é psicopata. Atos violentos podem ser excesso de sensibilidade mal direcionada. Distorcida. Desordenada. Mal Regulada. Pessoas equilibradas também se desequilibram pontualmente. Crimes impulsionados por forte emoção têm atenuante de pena. Psicopatas costumam ser frios e não movidos por emoção. Motivo considerado fútil, sim, é agravante de pena no Brasil. Mas o que seria considerado fútil? Sociopatas até experimentam emoções, mas não as derivadas da conexão emocional genuína. O que ocorre com o fenômeno da internet e predominância de interação por redes sociais é que a falta de interação com a matéria física gera, sim, um nível baixo de empatia. O aclamado Livro Geração Ansiosa compartilha dados de uma deterioração absurda da saúde mental a partir de 2010 e estamos todos cada vez mais convictos de que o excesso de informação é, sim – dã – um excesso. Os benefícios da absorção da profusão da informação em massa é história, sim, pra boi dormir, como diria meu pai. Ignorância pode ser uma dádiva.
Na série em questão, fica implícita a forte interação do protagonista, assim como os demais meninos de sua geração, com as redes sociais e participação em movimentos masculinistas, assemelhados ao que ficou conhecido como Red Pill, em que influenciadores conscientizam os homens sobre a crise da masculinidade atual, com destaque para o conceito “80/20”, mencionado na série, em que, aparentemente, 80% das mulheres se interessariam por apenas 20% dos homens. Isso faz com que muitos se tornem Icel – sigla do inglês para celibato involuntário.
A questão que fica é: os dados não parecem ser falsos. O que pode ser discutido é a forma de lidar com eles. A culpa certamente não é das mulheres por terem ocupado mais espaços e estarem contribuindo com grandes feitos para a humanidade. Afinal, elas também querem ser mães e estão vivendo suas vidas com óvulos em bancos de congelamento. O útero é mesmo uma bomba relógio.
Num mundo em que os homens se veem frágeis e sem direção clara – e aqui está um grande trunfo de autenticidade da série pra mim – Adolescência teve como protagonismo a dor real de um homem-menino. Após décadas de reparação histórica em relação à mulher, voltamos o olhar profundo para a situação do homem no novo contexto sistêmico gerado.
Psicanaliticamente falando, complexos são gerados por insegurança. O homem que agride e mata, ao contrário do que se pode pensar, não é forte – mas fraco, complexado. Homens, por natureza e cultura, costumam ser mais fortes fisicamente. No restante, e agora mais do que nunca, se veem amedrontados pela grandeza da complexidade e força femininas.
O pulo do gato conceitual é que – agora com uma pitada filosófica – o verdadeiro poder não se prova no domínio do outro, mas no domínio de si. Poder direcionado ao outro geralmente é expressão de fraqueza e falta de poder real.
Mas como explicar isso para uma humanidade em plena crise de valores? Na série, o garoto parecia ter uma família totalmente dentro dos padrões da normalidade, estruturada, e isso não o impediu de se livrar das próprias limitações, fraquezas, negociando o destino trágico de ter que passar a vida atrás das grades após um ato de fúria – calculado – mas de fúria.
Ouvi dizerem que o tema da série é a crise da masculinidade, mas eu diria mais. Vivemos uma crise geral de valores na sociedade e principalmente nos relacionamentos. A geração Millennial é uma geração que não se casou. Atualmente, há 81 milhões de solteiros no Brasil, superando os 63 milhões de casados. Muitos dos solteiros declaram que o são por opção, mas será? Se com referência familiar (famílias são a base da sociedade segundo a Constituição Federal de 1988 e a base do sofrimento de toda a teoria psicanalítica freudiana) a situação está feia, imagina sem essa construção.
Paralelamente aos que negam a vocação familiar, vemos crescentes os movimentos de manipulação para conquista veiculados por influenciadores. A comparação de realidades vinda à tona com a proliferação do uso de redes sociais a partir de 2010 gera inveja, avaliação relativa e incentiva a construção de relações baseadas na falta. Não amor.
Vemos, sim, mulheres movidas pelo poder do status e do dinheiro, ou, na melhor das hipóteses, pela busca de estabilidade financeira na hora de buscar um par amoroso. Os homens costumam ser movidos pela necessidade de sexo. Uma troca utilitária, não sei justa ou não, mas real. Sempre foi assim de certo modo. Mas a essência do romantismo em seu melhor sentido tem, para o prejuízo de todos, se perdido em larguíssima escala, e as relações baseadas em jogos de poder, controle e manipulação viraram a máxima geral. O cinismo e a leviandade imperam. Liquidez, falta de empatia e superficialidade são palavras que evitei nesse texto por serem óbvias demais.
A série Adolescência tem esse nome, a meu ver, porque, de algum modo, parece que todos nós, enquanto sociedade, empacamos na adolescência, com nossos complexos, dores, fraquezas. Cada vez menos resilientes à dor, às frustrações. Vitimistas, culpamos os outros por nossos próprios infortúnios. Sem força para dar a volta por cima. Afogados em dados, ilusões, comparações, excesso de informação. Isso torna todos nós menos interessantes, raivosos, ansiosos, menos aptos a uma parceria duradoura de vida. Uma necessidade que podemos até fingir não querer, mas precisamos. Urgentemente.
